Frankl e Said
Era uma vez dois amigos meus – pois são como velhos amigos, sábios e generosos, os pensadores que nos emprestam as lentes de suas vivências e nos ajudam a adentrar os mistérios do existir no mundo.
Um dos amigos, Viktor Frankl, era judeu austríaco e foi enviado a um campo de concentração na Segunda Guerra. Perdeu esposa, pais e irmão para as atrocidades nazistas. Depois de liberto, tornou-se autor de uma das mais bonitas obras jamais escritas em Psicologia. Trabalhou por muitos anos em Viena e, mais tarde, nos Estados Unidos. A experiência como detento foi essencial na elaboração de sua logoterapia, ou terapia pelo sentido da vida.
Quando tudo é tirado de um homem, dizia Frankl, ainda lhe resta a liberdade da experiência íntima, transcendental, independente de tudo aquilo que está fora de si e não pode controlar. Em meio ao horror do genocídio, de nada serve ao homem perguntar à vida qual é o sentido, pois é a vida mesma que dirige essa pergunta ao homem. O sentido, segundo Frankl, só pode ser construído no aqui e agora, pela ação do trabalho, pela contemplação do belo ou pelo aprendizado que o sofrimento impõe.
O outro amigo, Edward Said, era palestino. Ainda criança, migrou com a família para o Egito e, mais tarde, para os Estados Unidos, onde se tornou professor de Literatura Inglesa e militante pela causa palestina. Foi membro do Conselho Nacional Palestino, o parlamento palestino no exílio. Renunciou seu cargo porque discordava das partilhas territoriais. Para Said, apenas um único Estado multiétnico, que abrigasse compatriotas judeus e palestinos, poderia trazer paz para a região.
A condição de palestino exilado determinou profundamente sua vida e sua obra. Said é considerado um dos pais dos estudos pós-coloniais, movimento intelectual que se dedicou à apreensão das sequelas deixadas pelo imperialismo. Em pesquisa e argumentação rigorosas, Said mostrou como, ao longo da História, o mito de um Oriente exótico e bárbaro foi construído pelos ocidentais. Mais que isso, explicou como própria identidade europeia – branca e civilizada – se constituiu em contraposição à alteridade oriental forjada – selvagem e de cor.
Não sei dizer se meus dois amigos chegaram a se conhecer um dia ou se sequer ouviram falar um do outro, embora tenham coincidido em ser imigrantes e acadêmicos em um mesmo país. Tiveram profissões e áreas de interesse bastante distintas e, por isso, não há muita razão em comparar suas obras. Ainda assim, considero-os autores complementares: enquanto Frankl nos fala de uma dimensão muito subjetiva do sofrimento e da superação, Said nos convida a repensar a forma como enxergamos o Outro e a nós mesmos – juntos conduzem-nos em uma dialética necessária a qualquer mínimo vislumbre de paz.
Era uma vez uma guerra que começou muitos anos antes de eu nascer – muitíssimos anos antes de nascerem as crianças hoje vítimas de bombardeios covardes, que testemunhamos atônitos. Essa guerra, em terra longínqua, sinto-a tão próxima a mim. Não se trata da tragédia do Outro; é tragédia de todos nós. Penso nos sofrimentos íntimos, penso nas instituições culturais que levam a guerras atrozes. Penso em meus amigos Frankl e Said, que me ensinaram coisas primordiais sobre nossa humanidade comum.

