Matéria-prima
“Pensamentos de verdade são, para ela, os questionamentos sobre si própria, sobre o ser, o ter e a existência. É o aprofundamento de sensações fugidias, impossíveis de serem transmitidas aos outros, tudo aquilo que, se ela tivesse tempo para escrever – sequer tem tempo para ler –, seria a matéria do seu livro.” (Annie Ernaux, Os Anos)
Acho que eu poderia encontrar em Annie Ernaux todas as epígrafes para todos os textos que nunca vou conseguir escrever. Fantasio, pés fora do chão, tornar-me um arremedo de Ernaux ou Saramago, esses que, tomados pelo comezinho incontornável da vida, passaram anos alimentando em si o que não se comunica, a matéria-prima, e esperaram até a maturidade para transformá-la em escrita pródiga e linda. Volto, então, os pés à terra, e não me sinto digna de projetar-me nesses nomes-nobéis. Nem com muita sorte e toda a dedicação do mundo eu chegaria próxima a seus rascunhos. Uma vantagem sincera é que não pretendo ir muito longe. Só queria, admito, reter as tais sensações fugidias, impedir o tempo, memória que se esfalece, de levar os instantes, aqueles em que estive viva, de levar meus avós, os amores, os sofreres, a capacidade de me apaixonar.
2023 foi um ano maneiro – teletrabalho, Psicologia na veia, leiturinhas inspiradoras – que terminou com uma vontade enérgica de escrever – algo, descobrir o quê, poderia começar com uma newsletter... 2024 chegou para acabar com a festa, dando pontapés na porta: viagens intermináveis para ir e voltar do trabalho, uma ginga atrapalhada para conciliar faculdade, as mazelas de um relacionamento desgastado. Ganhei dermatites feias pelo corpo todo, perdi tufos e tufos de cabelo, abandonei a newsletter, como já se podia prever. Vira e mexe penso na Ana Andalécio, que disse tanto gostar de me ler, e fico chateada por decepcioná-la. Não há, porém, perspectiva de que o cenário mude tão cedo: tenho agora que aprender uma nova função no trabalho, cumprir todos os estágios da graduação, fazer o TCC. Também preciso encontrar um jeito de encaixar atividade física no meio desse rebuliço, porque, todos me dizem, estou muito magrinha é necessário ganhar alguma massa muscular antes que a menopausa chegue.
Da juventude, não sinto saudade de um tanto de coisas, mas bem que era bom ir vivendo de uma maneira junk, sem a menor preocupação de que a saúde cobraria conta. Em contrapartida, deixar para trás beleza e pretensão juvenis vem com o grande ganho de passar a caber em um lugar menor, que muito aprecio. Antes, essa cidade era pequena demais para mim; agora, sinto-me miúda andando por suas ruas, sinto-me comum, mediana, e sinto-me em paz com essa insignificância. Sou uma burocrata que faz seu trabalho direitinho, com responsabilidade e sem paixão, sem brilho, mas carregando em si paixões outras e imensas. Sou uma mulher que envelhece, sou um ser caminha seu tempo em direção à morte, sou um ponto na trama da história da vida. O melhor do envelhecimento é a humildade que nos ensina.
Ontem à noite, de volta da repartição, enquanto preparava uma sopa e tomava uma taça de vinho tinto, coloquei um velho cd do Belle & Sebastian para tocar. Eu estava emotiva. Essa música me faz lembrar de uma fase triste, soa triste, mas tem a peculiaridade de me fazer sentir feliz por estar triste ou, talvez, por sentir que ainda estou viva, apesar das memórias borradas, dos amores que se perdem, de meus avós que já não estão, da Luíza, da dificuldade de sonhar e inventar que vem junto com os anos que se acumulam, como camadas de peles enrijecidas. Ao som do cd, esbocei esse texto na minha cabeça.
Não vou prometer escrever mais regularmente, porque obviamente não escreverei. Meus textos parecem quase todos repetir-se nessa manifestação do desejo de escrever, como a primeira página de um diário reescrita inúmeras vezes, um diário que só tem a primeira página, e segue assim até que todas as folhas do caderno se terminem. Até a morte? Enquanto não chega seu dia, há algo que desejo muito mais de que esses experimentos acanhados de escrita, algo muito melhor de que me imaginar velha seguindo os passos de Ernaux: quero poder cuidar do incomunicável em mim, manter vibrante o intangível, que é triste e feliz, e continuar aprendendo, no cotidiano miúdo, sobre a vastidão dessa minha pequenez.


Querida, que sopro bom veio de você nesta manhã de domingo em que te leio. Linda imagem uma primeira página sendo reescrita ao longo da vida: também requer muita criatividade revisitar sensações e lugares emocionais com frescor. Sigo te lendo ❤️
Sou fã, de carteirinha. Continue nos presenteando com seus textos e reflexões, sempre que a vontade bater. ❤️