Psicologias
Da Psicologia, diz-se ser uma ciência multiparadigmática, em referência à ideia de paradigma proposta por Thomas Kuhn. Isso significa que, diferentemente de ciências como a Física, que se desenvolvem pela adoção e posterior abandono de modelos consensuais pela comunidade científica, em Psicologia não chegamos a um consenso relativo a teses, métodos e nem mesmo sobre qual seria seu objeto de estudo: mente, comportamento, subjetividade, inconsciente humanos. Pela falta de um paradigma, mais de que uma Psicologia, há quem fale da existência de Psicologias, no plural.
Entendo que o maior desafio de estudantes e profissionais da Psicologia seja definir sua abordagem, isto é, a linha teórica que sustentará sua práxis. Algumas abordagens, só para exemplificar, são a Análise do Comportamento, as Terapias Cognitivo-Comportamentais, a Gestalt-Terapia, a Psicologia Socio-Histórica, o Psicodrama, a Psicanálise (embora muitos psicanalistas rejeitem que a Psicanálise seja nomeada abordagem ou mesmo ciência – mas isso é outra e longa história, que fica para outro dia).
Algumas pessoas dizem que a escolha da abordagem é uma questão de “visão de mundo”. De minha parte, acredito ser bem mais do que isso. Filiar-se a uma abordagem demanda muito estudo, daquilo que a gente gosta e daquilo que a gente não gosta. Demanda muita responsabilidade também, porque psicólogos são profissionais da saúde, cuidam de pessoas que lhes confiam suas vidas. Então não vale fazer o caminho mais fácil: ficar com a abordagem do professor mais simpático, com a mais simples de aprender, com a mais “sedutora”... Misturar perspectivas não é de todo impossível, mas requer profundo conhecimento epistemológico. Ecletismo descuidado é malvisto e pode ser perigoso, porque nem tudo combina com tudo, sob o risco de virar qualquer coisa. Há pontos de vista que se complementam; outros que se anulam.
Para alguém que procura por psicoterapia, também é interessante informar-se sobre os diferentes modelos propostos. A escolha do psicoterapeuta, e portanto da abordagem, tem que ser adequada a cada um, às demandas e necessidades pessoais, ao momento específico da vida. Existem abordagens e técnicas mais ou menos eficazes em função das distintas condições, patologias, personalidades. Quando se estiver buscando um profissional da saúde mental, deve-se desconfiar sobretudo daqueles que incorporam modelos explicativos que se proponham universais, dos que acusam de “reducionistas” todas as teorias que não a de sua predileção e das quais, provavelmente, muito pouco sabem. O respeito com que se refere a outras abordagens costuma ser um bom indicador do quanto um profissional da Psicologia é digno de confiança.
Claro que há profissionais excepcionais em todas as abordagens. Muitos estudos que avaliam a eficácia dos diferentes tratamentos psicoterápicos ressaltam a importância, para seu sucesso, do vínculo que se estabelece entre paciente (ou cliente) e terapeuta, mais além da teoria e das técnicas em si. O engajamento do paciente também é fundamental, independentemente da teoria que se adote. Do ponto de vista neurológico, fica fácil de entender. Somos seres de aprendizado ou, em outras palavras, dotados de neuroplasticidade. A partir da elaboração de narrativas, da construção simbólica, da abertura a novas formas de ver e de estar no mundo, o que as diferentes psicoterapias fazem em nosso cérebro é ajudar na substituição de padrões neurais disfuncionais por outros mais adaptativos. Por isso, ouso dizer que toda psicoterapia que funciona não deixa de ser uma espécie psicoeducação, ainda que essa possa acontecer de forma mais ou menos direta.
Se a falta de consenso e uniformidade imprime fragilidade à ciência psicológica, é também o que a torna tão rica e fascinante. Compreender o ser humano e ajudá-lo em seu sofrimento psíquico nunca será tarefa fácil e requer muita humildade, em primeiro lugar. Um dos meus objetivos nesse espaço de escrita é refletir sobre a Psicologia e o universo de temas que lhe são correlatos, agora que estou fazendo dessa ciência profissão. Sinto que ainda preciso encontrar minha voz em meio a aprendizados que gostaria de dividir e caminhos íntimos que me conduzem a eles, mas talvez essa busca possa ser partilhada com gente que tem interesses em comum ou com gente que simplesmente gosta de mim. Pensar junto, o que não significa pensar igual, parece sempre mais bonito que pensar sozinho, no final das contas.

